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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Filius Prodigus - Lucas Caput XV de versus XI ab XXI.


Prodigus filius

Homo quidam habuit duos filios. Et dixit adulescentior patri: Pater, da mihi portionem substantiae quae me contingit. Et pater divisit illi substantiam.  Et post aliqua dies adulescentior filius dissipavit substantiam suam cum prostitutis, bibit et ludos. Et postquam omnia consummasset, facta est fames valĭda in regione illa; et ipse coepit egere. Et abĭit et adhaesit uni civium regionis illus, qui misit illum in villam suam ut pascēret porcos. Et cupiebat implere ventrem silĭquis quas porci manducabant: et nomo illi dabat. In se autem reversus, dixit: Quanti mercenarii in domo patris mei abundant panibus, go autem hie fame perĕo. Surgens et ibo ad patrem meum et dicam ei:  Pater, peccavi in celum et coram te. Et surgens venit ad patrem suum. cum autem adhuc longe esset vidit illum pater ipsius, et misericordia motus occurrit ei, et cecĭdit super collum eius et osculatus est eum.
Lucas Caput XV de versus XI ab XXI. 

O filho pródigo

Um homem tinha dois filhos. E o filho mais novo disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E o pai repartiu sua fortuna. E depois de alguns dias, o filho mais novo desperdiçou os seus bens com prostitutas, bebidas e jogos. E depois de ter gastado tudo, houve uma grande fome naquele país, e ele começou a passar necessidade. E ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, que o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, e nomos lhe dava nada. Ele voltou a si, disse: Quantos empregados de meu pai têm pão suficiente, ir aqui morro de fome. Levanta-te, e irei ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o céu e diante de ti. Então ele se levantou e foi para seu pai. Quando ele ainda estava longe, o seu pai o avistou, e, compadecido, ele encontrou, e caiu sobre o seu pescoço, e beijou-o.
Lucas 15. 11-21

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A IMPORTÂNCIA DO LATIM NA ATUALIDADE


Publicado na Revista de ciências humanas e sociais, São Paulo, Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999.

A IMPORTÂNCIA DO LATIM NA ATUALIDADE

Mário Eduardo VIARO (USP)

RESUMO: Este artigo pretende ser apenas um trabalho de divulgação acerca da importância que a língua latina ainda exerce sobre a língua portuguesa. Será dada uma ênfase especial ao ensino do latim, que serve como um ótimo instrumento para entender as irregularidades e as exceções da gramática portuguesa.

PALAVRAS-CHAVE: língua latina, regras gramaticais, composição de palavras.

ABSTRACT: This paper intends to be only a popularization work about the important influence of the Latin upon the Portuguese language. A special emphasis will be laid on the Latin teaching, which is useful as an excellent way to understand the irregularities and the exceptions of the Portuguese grammar.

KEY-WORDS: Latin language, grammatical rules, word composition.

O latim, como tantas outras coisas de nossa sociedade, é amiúde objeto de polêmica: se, por um lado, grassa o saudosismo daqueles que lastimam a sua exclusão do primeiro e segundo graus, por outro, abundam depoimentos de pessoas “traumatizadas” com a dificuldade que tiveram em aprendê-lo pelo método tradicional. Essas opiniões causam certa apreensão nos alunos de Letras, ao virem que Língua Latina é disciplina obrigatória em sua grade horária. Alguns têm a expectativa de encontrarem uma panacéia para todos os problemas da língua portuguesa, outros esperam algo terrivelmente difícil, quase intransponível. Mas que é o latim? Desde o primeiro texto em latim, a Fíbula de Preneste, do século VII a.C. o latim desenvolveu-se como qualquer língua, deixando seus traços em autores antigos, os quais conhecemos apenas por fragmentos de suas obras: Lívio Andronico, Névio e Ênio. Mais tarde, aparecerão os textos de Catão e as comédias de Plauto e Terêncio, escritas num latim bastante diferente daquele do séc. I a.C., quando começa a chamada fase clássica da literatura latina: César, Cícero, Ovídio, Horácio, uma dor é pungente. O verbo careo significa “não ter”, donde o particípio presente carens, carentis “aquele que não tem”, isto é, o carente. Do supino do verbo repo “rastejar” temos reptum, por isso dizemos que a serpente, por rastejar, é um réptil; aliás, serpente é o particípio presente serpens, serpentis do verbo serpo, que é um sinônimo de repo. Os verbos originais escondem um sentido que se evidencia nas formas nominais: de clepo “roubar” reconhecemos o particípio cleptum, na palavra cleptomaníaco; salio não parece significar “saltar”, até que vejamos o supino saltum; nem sepelio parece significar “enterrar” até que conheçamos o particípio presente sepultus, que lembra sepultar; nem taceo lembra “calarse” até que encontremos o particípio tacitus, donde provém a palavra portuguesa tácito, isto é, “sem palavras”. O verbo rideo “rir” tem o supino risum, donde o português riso, mas o radical RID é visível em ridículo, aquilo do qual se ri. Do verbo cado “cair” nasce a expressão estrela cadente, ou seja, estrela que cai, como de decado “cair do alto” temos decadente “que cai de uma posição social alta”. O verbo ago “fazer”, tem particípio presente agens, agentis “aquele que faz”, por isso na gramática temos o “agente da passiva”. O mesmo verbo ago tem particípio passado actus, donde vem a palavra ato, isto é, o que foi feito. Do neutro plural do mesmo particípio passado temos ata “as coisas que foram feitas” e do gerundivo temos agenda, isto é, “as coisas que devem ser feitas”. Também do gerundivo temos propaganda “as coisas que devem ser propagadas”, oferenda “o que deve ser oferecido”, merenda “o que deve ser dado a quem merece”.

Concluindo, o latim possibilita-nos aprender melhor outras línguas. Assim, o verbo absum “estar ausente” tem o particípio presente absens, absentis “o que está ausente”: em inglês, temos absent “ausente”. O verbo caleo significa “aquecer” e seu particípio presente é calens, calentis “o que está aquecido”, donde espanhol caliente “quente”. O verbo exeo “sair” tem particípio passado exitus, de onde veio o inglês exit “saída”. Também transfero “levar para o outro lado” gerou o verbo transferir em português, enquanto seu particípio passado irregular translatus criou o verbo em inglês to translate “traduzir”, isto é, “transferir de uma língua para outra”. O verbo deleo “destruir” parece-nos mais familiar quando vemos seu particípio passado: deletus, donde vem o inglês delete e daí o nosso deletar... Não é incrível que o português, sendo uma língua vinda do latim, tenha de emprestar palavras do inglês, que é uma língua germânica, para se relatinizar? Presenciamos para com a língua que é a base da língua portuguesa, justamente no país que tem a maior população de fala românica do mundo, que é o Brasil? Só mesmo o imediatismo, tão frequente na visão de mundo brasileira, pode explicar que o ensino do latim continue visto como desnecessário para o ensino do português, tão ausente e distante ele parece estar das necessidades mais prementes da Sociedade. Os métodos antigos em muito pecaram, dando ao ensino do latim o caráter penoso das infinitas tabelas a serem decoradas pelo aluno, que, por sua vez, não via sentido naquilo. Muitas vezes até textos inteiros tinham de ser decorados. Não querendo tirar o mérito dessa metodologia, que, por seguro, ajudava em muito a desenvolver a memória dos alunos, acredito que atualmente a postura é outra: é preciso revitalizar o valor que o latim tem como um ótimo meio para aguçar a percepção etimológica das raízes do português (e de outras línguas, como visto acima), o exercício da análise sintática, o raciocínio lógico, a ampliação de vocabulário e a curiosidade para entender outros momentos históricos e o desenvolvimento das sociedades e do pensamento até os dias de hoje. As consequências, num segundo momento, aparecerão na compreensão mais clara da ortografia portuguesa, na solução lógica das flexões irregulares e das exceções, no questionamento da nomenclatura tradicional e no vasto repertório histórico-filosófico que o aluno adquirirá, estando, assim, pronto para estabelecer suas próprias analogias e defender seus pontos de vista com mais clareza.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

FARIA, Ernesto. Dicionário escolar latino-português. Rio de Janeiro, MEC, 1962.

___________. Gramática superior da língua latina. Rio de Janeiro, Acadêmica, 1958.

GAFFIOT, F. Dictionnaire latin-français. Paris, Hachette, 1934.

MAURER Jr., Teodoro H. Unidade da România Ocidental. São Paulo, s/e, 1951.

RÓNAI, Paulo. Curso básico de latim. Gradus Primus. São Paulo, Cultrix, 1995.

____________. Curso básico de latim. Gradus Secundus. São Paulo, Cultrix, 1995.

TEYSSIER, Paul. História da língua portuguesa. Lisboa, Sá da Costa, 1990.

Acessado de http://www.fflch.usp.br/dlcv/lport/pdf/MViaro018.pdf

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Eneida de Virgílio


Eneida, o poema da fundação mítica de Roma, escrito há mais de dois mil anos pelo poeta latino Públio Virgílio Marão, acaba de ganhar nova edição da Martins Fontes (coleção Biblioteca). O texto foi vertido do latim pelo filólogo português José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva.

Sangue e fogo sobre a terra. Homens e deuses guerreando. Fúria de tempestades sobre frágeis naus. Combates em campo aberto, corpo a corpo. A morte no encalço. Crânios e ossos triturados. Dor. Honra, dever e ambição. Amores contrariados e traições. Desígnios, destinos, fados. Estes são alguns dos ingredientes que conformam um dos mais belos poemas de todos os tempos, contando a fuga do guerreiro Enéias, quando da queda de Tróia, suas aventuras e desventuras pelo mar Mediterrâneo, seu encontro com Dido, rainha de Cartago, e o destino que lhe estava prometido: criar uma nova cidade e um novo povo. Eneida traz as peripécias de Enéias, escritas há dois mil anos por Virgílio.

O poema é um conjunto de doze cantos, o primeiro contando a derradeira noite de Tróia, que caiu, após um cerco de dez anos, depois que o grego Ulisses usou o artifício do cavalo de madeira para penetrar os muros da cidade. Enéias é um dos poucos a sobreviver. Carregando seu pai, o velho Anquises, nos ombros, e tomando pela mão seu único filho, Ascânio, Enéias parte para cumprir uma profecia: no reino de Latino, cravado na ''bota'' plantada no mar Mediterrâneo, haveria de nascer a cidade mais poderosa do mundo. E Enéias seria a semente de sua fundação. Eneida começa onde termina a Ilíada, o poema épico de Homero sobre a guerra de Tróia, também conhecida por Ílio. A saga homérica continua na Odisséia, que vai tratar das viagens de Ulisses, ou Odisseu, e suas aventuras até voltar, vinte anos depois, à sua ilha de Ítaca.

Pois, o que o romano Virgílio, tomando como modelo o grego Homero, conta na Eneida é a fundação mítica de Roma. O que ele canta é o nascimento do mais duradouro império que já reinou sobre a terra: mil anos. ''Eu canto as armas e o varão primeiro/ que, prófugo de Tróia por destino/ à Itália e de Lavínio às praias veio''. A obra de Virgílio é também fundamento da latinidade, a cultura que se espalhou por todo o Velho Mundo, da Ásia à África e Europa. O livro de Virgílio está na base de outros poemas épicos, como Divina Comédia, de Dante, Paraíso Perdido, de Milton, Os Lusíadas, de Camões, e mais modernamente do poema Mensagem, de Fernando Pessoa, ou do contemporâneo Invenção do Mar e Os Peãs, ambos do poeta cearense Gerardo Mello Mourão.

A editora Martins Fontes, através do selo Biblioteca, acaba de lançar nova reedição daEneida de Virgílio, com tradução do latim feita pelo filólogo português José Victorino Barreto Feio, latinista do século 19. Os quatro cantos finais foram traduzidos por José Maria da Costa e Silva, amigo de Feio, falecido antes de concluir o trabalho. A edição é organizada por Paulo Sérgio de Vasconcellos (que assina as ''orelhas'' e o estudo introdutório).

A Loba. O outro nome de Roma. Símbolo da cidade, bem dizer, o seu sinônimo, é a figura desta fera lupina que acolhe e aleita os gêmeos Rômulo e Remo, filhos da sacerdotisa Ília e do deus Marte. Não é de estranhar que Roma nasça sob o signo do sangue e da guerra fratricida: o pai mítico, Marte, é o senhor da guerra. E Rômulo mata seu irmão, tomando o poder da futura capital do império dos césares. O fio do novelo começa em Ascânio (também chamado Iulo e daí Júlio), o filho de Enéias, do qual descendem os reis albanos e, destes, os gêmeos abandonados à beira do rio Tibre, salvos porque uma loba os alimentou. Mas, até que isto aconteça, há o poema - a saga de Enéias, a Eneida.

Fontes: http://www.jornaldepoesia.jor.br/eneida.pdf

http://pt.scribd.com/doc/23628378/Virgilio-Maron-Publio-La-Eneida-Bilingue

1. Eneida de Virgílio

ENEIDA

Virgílio

Tradução: Tassilo Orpheu Spalding

Eles iam, obscuros, através da noite solitária, através da sombra e através das moradas vazias e do vão reino de Dite: tal é o caminho nos bosques, quando a lua é incerta, sob uma luz maligna, quando Júpiter mergulhou o céu na sombra e a sombria noite arre­batou às coisas sua cor.

No próprio vestíbulo, à entrada das gargantas do Orco, o Luto e os Remorsos vingadores puseram seus leitos; lá habitam as pálidas Doenças, e a triste Velhice, e o Temor, e a Fome, má con­selheira, e a espantosa Pobreza, formas terríveis de se ver, e a Morte, e o Sofrimento; depois, o Sono, irmão da Morte, e as Alegrias perver­sas do espírito, e, no vestíbulo fronteiro, a Guerra mortífera, e os férreos tálamos das Eumênides, e a Discórdia insensata, com sua cabeleira de víboras atada com fitas sangrentas.

No meio, um olmeiro opaco, enorme, estende seus ramos e seus galhos seculares, morada, diz-se, que freqüentam comumente os Sonhos vãos, fixados sob todas as suas folhas. Além disso, mil fan­tasmas monstruosos de animais selvagens e variados aí se encontram: os Centauros, que têm seus estábulos nas portas, e as Cilas biformes, e Briareu hecatonquiro, e o monstro de Lema, assobiando horrivel­mente, e a Quimera armada de chamas, e as Górgonas, e as Harpias, e a forma da Sombra de tríplice corpo.

Tremendo com súbito espanto, Enéias desembainha sua es­pada e apresenta a ponta acerada aos monstros que avançam; e se a sua douta companheira não o advertisse de que se tratava de tênues almas sem corpo, que volitavam sob um envoltório sem consistência, ter-se-ia precipitado sobre elas e em vão feriria as sombras com o ferro.

Daqui começa o caminho que conduz às ondas do Aqueronte do Tártaro: é um golfo que borbulha, vasto abismo de lodo que re­ferve e que vomita todo seu limo no Cocito. Um barqueiro horrendo guarda estas águas, e os rios, Caronte, de terrível sujidade, cuja barba abundante, branca e mal tratada, lhe cai do queixo; seus olhos cheios de chamas são fixos; pende-lhe das espáduas o sórdido manto amar­rado com um nó. Por meio de uma vara impele a embarcação, diri­ge-a com a vela e transporta os corpos na barca cor de ferrugem; já é idoso, mas sua velhice é sólida e vigorosa como a de um deus. Toda a multidão ali espalhada corria para a margem, mães e homens e corpos de magnânimos heróis, privados da vida, meninos e virgens e mancebos colocados nas fogueiras ante os olhos dos pais, tão nume­rosos como as folhas que giram e caem nos bosques ao primeiro frio do outono; tão numerosos como os pássaros que se agrupam, vindos do alto-mar para o continente, quando a fria estação os faz fugir atra­vés do oceano e os expulsa para as terras soalheiras. Agrupados, pe­diam que fossem os primeiros a passar, e estendiam as mãos na ânsia de atingir a outra margem. Mas o triste barqueiro acolhe ora estes, ora aqueles, e afasta para longe das margens aqueles que recusou.

Enéias, que este tumulto espanta e comove, interpela a Sibila: “Ó virgem, explica-me o que quer esta multidão junto do rio. Que pedem estas almas? Por que discriminação algumas são afastadas da margem ao passo que outras varrem com os remos essas ondas lívi­das?” A velha sacerdotisa lhe responde abreviadamente: “Filho de Anquises, prole certíssima dos deuses, vês os marnéis profundos do Cocito e os paludes do Estige, cujo poder os deuses temem perjurar. Toda essa multidão que vês, são pobres que ficaram sem sepultura; aquele barqueiro é Caronte; aqueles que a onda conduz foram os sepultados. Não lhe é permitido transportar os mortos para as mar­gens horríveis por cima das roucas ondas, antes que seus ossos te­nham encontrado a paz do túmulo. Durante cem anos as almas erram e volitam ao longo dessas margens. Somente então, tendo sido admi­tidas, vêem por sua vez os marnéis tão desejados”. O filho de Anqui­ses se deteve na sua marcha, pensativo, deplorando no seu

2. Eneida de Virgílio



coração a sorte iníqua daquelas sombras. Lá ele vê, afligidos e privados das honras da morte, Leucáspide e o chefe da armada lícia, Orontes, que, partidos de Tróia com ele e sacudidos pelos mares tempestuosos, foram assaltados pelo Austro e engolidos na água com navios e homens.

Eis que se aproximava o piloto Palinuro, que outrora, na travessia do mar da Líbia, caíra da popa quando observava as cons­telações, e havia desaparecido no seio das ondas. Apenas Enéias reconheceu na sombra espessa o seu aflito amigo, dirigiu-lhe por pri­meiro a palavra: “Qual dentre os deuses, Palinuro, te arrebatou de nós e te mergulhou no seio da líquida planície? Vamos, dize. Pois Apolo, que anteriormente por mim nunca foi considerado mentiroso, enganou o meu espírito respondendo-me e prognosticando que nada havia a temer do mar e que chegarias aos confins da Ausônia. E assim que mantém a sua palavra?” Palinuro responde-lhe: “Não, o tripé de Febo não te enganou, filho de Anquises, meu chefe, e um deus não me mergulhou na líquida planície. Pois o leme cuja guarda me confiaste e ao qual estava agarrado com muita força, a fim de dirigir a tua rota, rompeu-se por acaso sob um golpe violento; preci­pitado, levei-o comigo. Juro pelos mares tempestuosos que não tive medo por mim, mas sim por teu navio, despojado de aparelhos e privado de piloto, não fosse ele capaz de resistir às tão grandes ondas que se erguiam. Durante três noites de tempestade, o Noto desen­freado por entre a imensidade da líquida planície me carregou sobre as águas; a custo, no quarto dia nascente, erguido no ar, na crista dum vagalhão, vi a Itália diante de mim. Nadava, aproximando-me pouco a pouco da terra; e já estaria em segurança, se gente bárbara, em me vendo com minhas vestes encharcadas, pesado de água, ten­tando agarrar com minhas mãos crispadas as saliências ásperas dum promontório, não tivesse caído sobre mim na ilusória esperança de despojos. Agora, presa da onda, os ventos me arremessam para a praia. Isto te peço, pela agradável luz do céu e pelos ares, por teu pai e pela esperança de Iulo que cresce, livra-me destes males, ó herói invencível: ou dá meu corpo à sepultura, pois tu podes, e procura o porto de Vélia, ou, se há outro meio, se a deusa tua mãe te indicar um (pois não é, creio, sem a vontade dos deuses que te preparas para atravessar tão grande rio e o mamei do Estige), estende tua mão a um infeliz e leva-me contigo através destas ondas, para que ao menos na morte descanse numa plácida morada”.

Tais eram as palavras que havia pronunciado, quando a sacer­dotisa começou: “Donde te vem, ó Palinuro, tão feroz desejo? Tu, que não foste inumado, tu verás as águas do Estige e o rio severo das Eumênides, e, sem para tal haver recebido ordens, abordarás esta margem! Cessa de esperar que consigas, com tuas súplicas, dobrar os juízos dos deuses. Mas ouve e retém estas palavras, consolação para a tua dura desgraça: movidos por prodígios celestes que brilharão ao longe e ao largo pelas cidades, povos vizinhos aplacarão teus ossos, erguer-te-ão um túmulo e lhe levarão honras solenes; o lugar terá eternamente o nome de Palinuro”. Estas palavras baniram os cuida­dos de Palinuro e expulsaram por algum tempo a dor do seu triste coração: ele se alegra porque uma terra terá o seu nome.

Prosseguem, pois, o caminho começado e se aproximam do rio. Logo que, da onda estígia, o barqueiro os viu caminhando pela silenciosa floresta, e dirigindo os passos para a margem, por primeiro lhes dirige estas palavras, e livremente os repreende: “Quem quer que sejas, ó tu que te diriges armado para o nosso rio, dize já a que vens, e detém teus passos. Este é o lugar das Sombras, do Sono e da Noite soporífera; não é permitido transportar na barca estígia corpos vivos. Na verdade, não estou satisfeito de ter acolhido no lago o neto de Alceu que ia aos Infernos, nem Teseu e Piríto, posto que fossem descendentes dos deuses e de forças invencíveis. Aquele pôs em ca­deias, com a sua mão, o guarda do Tártaro e o arrancou, tremendo, do trono do próprio rei; os dois outros experimentaram raptar a soberana do leito de Dite”.

A sacerdotisa anfrísia lhe respondeu brevemente: “Nós não temos tais desígnios pérfidos; deixa de estar em cuidado; estas armas não trazem violência: o ingente porteiro

Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/eneida.pdf

3. Eneida de Virgílio



pode à vontade, do fundo do seu antro, ladrar eternamente e aterroriza as Sombras exangues; a casta Prosérpina pode habitar a morada do seu tio. O troiano Enéias, insigne pela piedade e pelas façanhas, desce para ver seu pai entre as sombras profundas do Erebo. Se o exemplo de tal piedade não te comove, reconhece, ao menos, este ramo”. E ela lhe mostra o ramo que estava escondido sob suas vestes. O coração de Caronte, túmido de cólera, então se acalma. Ela nada mais diz; ele, admirando o venerável dom do ramo fatal, que não via há muito tempo, volta para eles a popa sombria e se aproxima da praia. A seguir, afasta as outras almas, que estavam sentadas ao longo dos bancos, esvazia o convés e recebe no seu bojo o enorme Enéias. A frágil barca gemeu sob o peso, e, pelas fendas, recebeu muita água da lagoa estígia. Enfim expõe, são e salvo, além do rio, a sacerdotisa e o guerreiro, sobre o limo informe e entre o verde morraçal.

Lá estão os remos que o enorme Cérbero abala com o ladrar da sua tríplice goela; o monstro está deitado no antro, em frente da margem. A sacerdotisa, vendo já seu pescoço se eriçar de serpentes, lança-lhe um bolo soporífero composto de mel e de grãos preparados; o animal, com fome devoradora, abre suas três goelas e engole o que lhe lançam, estende-se no solo e com seus costados imensos enche todo o antro. Enéias apressa-se a transpor a entrada, enquanto o guar­dião está sepulto no sono, e se afasta rapidamente da margem de onda irremeável.

Repentinamente ouviram-se vozes, e um enorme vagido: almas infantis que choravam, as quais, no limiar da existência, som­brio dia arrancou sem que tivessem conhecido a doçura da vida, roubadas ao seio materno para serem mergulhadas na morte cruel. Perto delas, os inocentes, que foram condenados à morte por erro. Esses lugares não são determinados sem tribunal tirado à sorte, nem sem juizes: Minos, como juiz, agita a urna; é ele que convoca a Assembléia dos Silenciosos e que inquire da sua vida e dos seus crimes. Depois, ao lado, estão, acabrunhados de tristeza, aqueles que sem ter feito nenhum mal se suicidaram com sua própria mão, e que, odiando a luz, rejeitaram a vida. Como eles quereriam agora, sob o éter elevado, sofrer a pobreza e os duros trabalhos! O destino a isto se opõe, e o pântano odioso de onda triste os prende e o Estige divi­dido em nove braços os aprisiona.

Não longe dali se estendem por todos os lados os campos das Lágrimas: assim são chamados. Lá, aqueles que um duro amor devo­rou numa cruel consumpção, encontram, afastados, veredas que os escondem e florestas de mirtos que os abriga; seus tormentos não os abandonam nem mesmo na morte. Vê, nesses lugares, Fedra e Prócris, e a triste Erifila mostrando as feridas que um cruel filho lhe fez, e Evadne e Pasífae; Laodamia as acompanha, e Ceneu, donzel outrora, agora mulher, é revestido pelo destino com seu primitivo sexo.

Entre estas, a fenícia Dido, sangrando ainda da ferida, errava pela grande floresta; logo que o herói troiano chegou perto dela e a reconheceu, obscura, entre as sombras, como, no começo do mês se vê ou se julga ver a lua entre as nuvens, deixou as lágrimas correrem e lhe diz com doce amor: “Infortunada Dido! era pois verdade que não vivias mais e que, com o ferro na mão, seguiste o partido extre­mo! Da tua morte, ai de mim! fui eu a causa. Juro pelas constelações, pelos deuses do alto, e por tudo aquilo que há de sagrado nas profun­dezas da terra, foi, malgrado meu, ó rainha, que abandonei tuas pla­gas. Não fiz senão obedecer aos deuses, cujas ordens imperiosas me forçam agora a ir por entre estas sombras, por entre estes lugares cobertos de espantosos espinheiros e esta noite profunda. Não pode­ria crer que minha partida te causaria tão grande dor... Detém-te! Não fujas aos meus olhares! de quem foges? E a última vez que o destino me permite te falar”.

Com tais palavras, Enéias tentava abrandar aquela alma ar­dente, de torvo olhar, e procurava arrancar-lhe lágrimas. Mas ela, voltando a cabeça, tinha os olhos fixos no solo; seu rosto não se altera com essa tentativa de conversação, como se ela fosse dura pedra ou um alto contraforte do Marpesso. Finalmente retirou-se e fugiu, hostil, para a floresta umbrosa,

4. Eneida de Virgílio



onde seu primeiro esposo, Siqueu, corresponde a seus cuidados e partilha seu amor. Enéias, todavia, abalado por essa iníqua desgraça, segue-a ao longe, chorando, e, enquanto ela se afasta, ele dela se compadece.

Dali continua o caminho que lhe foi determinado. Já atingiam os campos mais recuados que, separados, freqüentam os varões ilus­tres na guerra. Lá lhe saiu ao encontro Tideu, aqui Partenopeu, célebre pelas suas armas, e a imagem do pálido Adrasto. Lá estão os dardânidas tombados na guerra e tão chorados pelo mundo de cima. Em os vendo desfilar a todos, em longa fila, Enéias geme; reconhece Glauco, Medote, Tersíloco, os três filhos de Antenor, Polibetes, con­sagrado a Ceres, e Ideu, tendo, ainda, as suas rédeas, ainda, suas armas. Essas almas o cercam, à direita e à esquerda, em grande número; não lhes é bastante tê-lo visto uma vez; apraz-lhes até demo­rar-se, seguir seus passos, informar-se da causa da sua visita. Mas os chefes dos dânaos e as falanges de Agamenão, apenas perceberam o herói e as suas armas brilhantes, tremeram presa de enorme pavor: uns voltam as costas, como outrora, quando fugiam para seus navios; outros emitem débil grito; o clamor começado expira na boca em vão escancarada.

Lá também ele viu o filho de Príamo, Deífobo, com o corpo todo retalhado, o rosto cruelmente golpeado e ambas as mãos e ore­lhas arrancadas, as têmporas feridas e o nariz mutilado com horrível ferida. Enéias a custo o reconhece, e ele, trêmulo, esconde suas cruéis feridas; mas aquele o chama com palavras familiares: “Deífobo, po­deroso pelas armas, nascido do generoso sangue de Teucro, quem pois ousou infligir-te tão cruel suplício? Quem assim te pôde tratar? Ouvi dizer, na última noite de Tróia, que, cansado de uma vasta carnificina, caíras sobre um montão informe de cadáveres. Então eu mesmo levantei um túmulo vazio sobre a margem do Reteu, e três vezes, em altos brados, invoquei teus Manes. Teu nome e tuas armas consagram aquele lugar; mas a ti, meu amigo, não pude encontrar nem te depositar, ao partir, na terra da pátria”. O filho de Príamo lhe responde: “Nada esqueceste, meu amigo; cumpriste todas as obri­gações para com Deífobo e para com a sombra do seu cadáver. Mas meu destino e o crime da lacônia me mergulharam neste abismo de males: eis a lembrança que ela me deixou. Em que enganosas alegrias passamos a noite suprema, tu o sabes, e é muito necessário que nos lembremos! Quando o fatal cavalo galgou a alta Pérgamo e para ela conduziu a infantaria armada que seus flancos guardavam, ela, simu­lando um coro, conduzia à volta do cavalo as mulheres frígias que celebravam as orgias; no meio delas, segurava um grande facho e cha­mava os dânaos do cume da cidadela. Estava, então, acabrunhado de pesares e oprimido pelo sono; estendido sobre meu infortunado leito, dormi, invadido por doce e profundo repouso, muito semelhante à tranqüila morte. Durante esse tempo minha excelente esposa retira todas as armas do palácio, depois de ter levado da cabeceira do meu leito minha fiel espada. Chama Menelau para dentro do palácio e lhe abre as portas, esperando sem dúvida que essa bela ação seduziria o homem que a amava, e que assim poderia apagar a lembrança do antigo adultério. Que direi? Eles precipitam-se para o meu aposento, e um companheiro a eles se junta, o instigador de crimes, o neto de Éolo. Ó deuses, renovai esses horrores contra os gregos, se é com piedosa boca que reclamo vingança! Mas tu, dize-me, por tua vez, que acontecimentos te trouxeram vivo a este lugar? Porventura vens trazido pelos cursos errantes do mar ou por conselho dos deuses? Ou que outra desgraça te persegue para que afrontes estas tristes moradas sem sol, estes lugares sombrios?”

Durante essa troca de palavras, a Aurora com a sua quadriga cor-de-rosa atravessara, no seu curso etéreo, a metade do céu; e cer­tamente passariam todo o tempo concedido a prolongar tal conversa, se a Sibila, sua companheira, não advertisse o herói e não lhe dissesse brevemente: “A noite está caindo, Enéias, e nós passamos as horas a chorar. Este é o lugar onde o caminho se bifurca para ambas as partes; o caminho à direita é o que vai dar nas muralhas do grande Dite: é o caminho dos Elísios, é o nosso; mas o caminho à esquerda

5. Eneida de Virgílio





conduz ao Tártaro ímpio, onde os maus são punidos”. Deífobo, em resposta, diz: "Não te irrites, grande sacerdotisa; afastar-me-ei; com­pletarei o número das sombras e reentrarei nas trevas. Vai, nossa glória, vai, segue melhores destinos”. Nada mais disse e com essas palavras se afastou.

Subitamente Enéias olha para trás e vê à esquerda, ao pé dum rochedo, largas muralhas circundadas por tríplice muro. Um rio rápido, o Flegetonte do Tártaro, as rodeia com chamas torrenciais e rola retumbantes rochedos. Em frente, uma enorme porta e colunas de sólido diamante, tais que nenhuma força humana, nem os próprios celícolas as podem derrubar. Uma torre de ferro se ergue nos ares, e Tisífone aí vigia, com a veste ensangüentada apanhada, guardando o vestíbulo noite e dia, sem dormir. Dali se ouvem gemidos, terríveis chicotadas, depois o ruído estridente do ferro e o arrastar de cadeias. Enéias parou e, atônito, escutou o barulho: “Que espécie de crimes aqui é punida? ó virgem, dize-me; quais são os castigos que aí se infligem? Que grande lamento é este que sobe aos meus ouvidos?” Então a sacerdotisa lhe responde: “Chefe ilustre dos teucros, não é permitido a nenhum homem transpor o limiar do crime; mas Hécate, em me confiando a guarda dos bosques sagrados do Averno, me instruiu ela mesma a respeito das penas estabelecidas pelos deuses e me conduziu por toda parte. O gnóssio Radamanto exerce nesses lugares o seu muito duro poder; tortura os fraudulentos e os obriga a confessar os crimes de que se gabam em vão de haver escondido dos mortais e cuja expiação diferiam até a hora tardia da morte. Imediatamente, armada de vergalhos, a vingadora Tisífone, saltando sobre os culpados, os flagela, e, com a mão direita, brandindo contra eles ameaçadoras serpentes, chama a feroz caterva de suas irmãs. Somente então, abrem-se as portas sagradas, rangendo na couceira com horrível ruído. Vês qual é a guarda que está assentada no vestíbulo? Lá dentro, mais feroz ainda, tem assento uma hidra monstruosa, de cinqüenta goelas negras e hiantes. Logo depois o próprio Tártaro se abre e se estende pelo império das sombras, duas vezes tão profundo quanto o espaço que o olhar alcança do céu até o etéreo Olimpo. Lá, a antiga raça da Terra, os Titãs, derrubados pelo raio, revolvem-se nas profundezas do abismo. Lá, também, vi os dois filhos de Aloeu, os Aloídas, monstruosos gigantes que tentaram forçar o grande céu com suas mãos e expulsar Júpiter do reino do céu. Vi, ainda, Salmoneu sofrer cruéis castigos; imitando os raios de Júpiter e o estrondo do Olimpo, tirado por quatro cavalos e agitando a tocha, atravessava, como triunfador , por entre os povos dos gregos e da sua cidade no meio da Élida e reclamava para si as honras dos deuses; louco! Cria que conduzindo por uma ponte de bronze os cavalos de cascos retumbantes imitava as procelas e o raio inimitável! Mas o pai onipotente lançou do seio das nuvens espessas, não brandões, não fachos de fumarentos tições, mas um raio, e o precipitou num monstruoso turbilhão. E era também para ver Tício, rebento da Terra, mãe de todas as coisas, cujo corpo cobre nove jeiras inteiras: um monstruoso abutre de bico recurvo roendo seu fígado imortal e suas entranhas fecundas em suplícios, aí escava a fim de encontrar alimento, e habita sob seu profundo peito e não dá tréguas às fibras sempre renascentes. Para que lembrarei os lápitas e Ixião e Piríto? Uns rolam ingente rochedo ou pendem, esquartejados, dos raios de uma roda; o infortunado Teseu está assentado e assentado permanecerá eternamente; Flégias, o mais desgraçado, adverte a todos e os toma por testemunha com a sua voz imensa, na sombra: ‘Aprendei, pelo meu exemplo, a respeitar a justiça e a não desprezar os deuses!’ Sob sua cabeça, negra rocha ameaça rolar e parece prestes a cair. Sobre altos leitos de festa luzem as cabeceiras de ouro, e alimentos estão dispostos sob seus olhos com luxo real; mas a mais idosa das Fúrias está deitada a seu lado e lhe impede pôr a mão na mesa, ergue-se brandindo sua tocha e faz ouvir o trovão da sua voz. Lá se encontram aqueles que durante a vida odiaram os irmãos, espancaram os pais ou enganaram a boa fé de um cliente; aqueles (e o número é considerável) que juntaram as riquezas para eles somente acumuladas e não deram uma parte ao próximo; aqueles que foram mortos por causa de adultério e aqueles que, seguindo ímpias

6. Eneida de Virgílio



armas, não temeram trair o juramento feito aos seus senhores: todos, lá aprisionados, esperam o castigo. Não procures saber qual é este castigo nem que forma de crime ou que destino mergulhou os homens nestes tormentos. Aquele vendeu sua pátria por ouro e lhe impôs um senhor todo-poderoso; aquele outro, mediante certa soma, estabeleceu leis e aboliu-as; aqueloutro penetrou na alcova da filha e consumou um himeneu interdito. Todos ousaram crimes monstruosos e realizaram sua audácia. Não, mesmo que tivesse cem línguas e cem bocas e uma voz de ferro, não poderia enumerar todas as formas de crime, passar em revista todos os nomes dos suplícios”.

Depois que pronunciou estas palavras, a velha sacerdotisa de Febo continuou: “Mas vamos, prossegue tua rota e conclui o que empreendeste com o meu favor; apressemo-nos; já vejo os muros saídos das forjas dos Ciclopes, e as portas com a abóbada fronteira, onde nos cumpre depositar estes presentes

Tinha dito; e, caminhando a par através das trevas da rota, atravessam rapidamente o espaço intermediário e se aproximam das portas. Enéias ocupa a entrada e borrifa com água fresca o seu corpo e fixa o ramo no limiar que lhe está fronteiro.

Terminados estes deveres e oferecido o presente à deusa, chegam às ridentes paragens, aos frescos vergéis de árvores deliciosas e às habitações dos bem-aventurados. Éter mais rico reveste esses lugares de luz de púrpura. As sombras aí têm o seu sol e suas cons­telações. Umas, sobre a relva, exercem seus membros na palestra, medem suas forças no jogo e lutam sobre a areia fulva; outras batem a terra em coros cadenciados e cantam versos. O sacerdote da Trá­cia, com longas vestes, faz soar harmoniosamente as sete notas do canto e faz a lira vibrar, ora sob seus dedos, ora sob o plectro de marfim. Lá se encontra a antiga descendência de Teucro, magnífica posteridade, heróis magnânimos nascidos em anos melhores: Ilo, Assáraco e Dárdano, fundador de Tróia. Enéias admira, de longe, as armas e os carros sem consistência dos guerreiros; as lanças estão pregadas na terra e os cavalos pascem aqui e acolá. Aqueles que gos­taram de carros enquanto vivos, e de armas, aqueles que gostaram de apascentar os nédios cavalos, conservam o mesmo gosto descidos sob a terra. Eis que vê outros à direita e à esquerda banqueteando-se na erva e cantando em coro alegre peã, no meio de um bosque odorí­fero de loureiros, donde o rio Erídano, que rola suas águas abundan­tes através da floresta, sai para ascender à superfície da terra. Lá se achava um esquadrão de guerreiros, cobertos de feridas que sofreram combatendo pela pátria, e os sacerdotes que, durante a vida, obser­varam os ritos; os poetas piedosos, cujos versos foram dignos de Febo; e aqueles que embelezaram a vida por meio de seus inventos e artes; e aqueles que por seus serviços mereceram viver na memória dos outros. Todos têm as têmporas cingidas com fitas cor de neve. A Sibila dirige-se a essas Sombras espalhadas ao seu redor, e sobretudo a Museu, pois ela o via cercado de numerosa multidão que ele ultrapassava com seus altos ombros: “Dizei, ó almas felizes, e tu, ó ótimo vate, que região, que lugar ocupa Anquises? Viemos por causa dele e passamos os grandes rios do Erebo”. Então o herói lhe respon­de assim em poucas palavras: “Ninguém aqui tem residência fixa; habitamos os bosques sombrios, as ribanceiras dos rios e as frescas praias regadas pelos regatos. Mas, se tal é a vontade de vossos cora­ções, subi este cabeço e logo vos porei em fácil atalho”. Tinha dito e, avançando na frente, mostra-lhes os campos brilhantes; descem logo do cume da eminência.

Entretanto o venerável Anquises, no fundo de um vale verde­jante, contemplava com terno interesse as almas que lá estavam en­cerradas e que deveriam vir à luz de cima; e justamente ele contava o número dos seus caros descendentes, seus destinos, sua fortuna, seus caracteres, suas façanhas. E logo que viu Enéias dirigindo-se do lado oposto, através dos relvados, alegre, levantou para o céu ambas as palmas das mãos; lágrimas banharam-lhe o rosto e sua boca deixou cair estas palavras: “Enfim vieste, e tua piedade, há tanto esperada pelo teu pai, triunfou da dura viagem! É-me dado contemplar teu rosto, ó filho, ouvir e fazer

7. Eneida de Virgílio



ouvir estas palavras familiares! Na ver­dade, tinha tal esperança no coração e contava o tempo gozando o futuro; minha solicitude não foi enganada. Que de terras, que de imensos mares atravessaste antes de chegar até mim! por quão gran­des perigos foste perseguido, ó filho! Quanto temi que os remos da Líbia te fossem nocivos!” Enéías, porém, retruca-lhe: “É a tua ima­gem, meu pai, é a tua triste imagem, que, oferecendo-se a mim fre­qüentemente, me força a transpor o limiar destes lugares. Minha frota está ancorada no mar Tirreno. Permite, ó pai, permite que aperte tua mão direita e não te afastes de meu abraço”. Assim falan­do, grossas lágrimas corriam-lhe pelas faces; três vezes tentou lançar os braços em volta do pescoço do pai, três vezes a imagem escapou-se das suas mãos, semelhante aos ventos ligeiros e semelhante a um sonho alado.

Entretanto Enéias vê num vale um bosque separado e arvore­dos cujos ramos farfalhavam, e o rio Letes que banha aquela aprazível região. Em volta desse rio agitavam-se nações e povos incontáveis; bem como quando as abelhas, num sereno dia de verão, pousam nas flores e se espalham em volta dos cândidos lírios, todo o campo murmura com o zumbido dos insetos. Enéias pasma a essa súbita vista, e se informa da causa daquele mistério: que rio é aquele que se estende ao longe? quem são os homens que cobrem, com sua longa fila, as praias? Então o pai Anquises lhe diz: “As almas, às quais são devidos pelo destino outros corpos, bebem na onda do rio Letes as águas quietas e os longos olvidos. Há muito tempo, na verdade, desejo te referir e pôr sob teus olhos e te enumerar toda esta descen­dência dos meus, para que rejubiles comigo de antemão por haver encontrado a Itália”. “Ó meu pai, é pois crível que as almas subam daqui ao ar, em direção do céu, e voltem, novamente, ao peso dos corpos? Que desejo insensato é este de luz que se apodera desses infelizes?” “Na verdade, eu te direi, meu filho, não te deixarei duvidoso”, retorna Anquises, e lhe desvenda, ordenadamente, cada segredo. “No princípio um sopro vivifica interiormente o céu, a terra, as líquidas planícies, o globo luminoso da lua e o astro de Titá, e o espírito, espalhado pelos membros do mundo, move a massa inteira e se mistura com este grande corpo. Daí provém a raça dos homens, a dos animais e a vida das aves, e os monstros que o mar encerra sob sua superfície marmórea. Há nessas sementes de vida vigor ígneo e origem celeste, enquanto corpos nocivos não os contrariem e par­tes corporais e membros perecíveis não lhes tolham as funções. Daí nascem os temores e os desejos, as dores e as alegrias, e não distin­guem mais as brisas do céu, fechados que estão nas suas trevas e na sua cega prisão. Além disso, logo que o dia supremo da vida deixou o corpo, os infelizes não estão de todo desembaraçados do mal e de todas as misérias corporais, e o mal que longo tempo se acumulou no fundo deles mesmos, necessariamente cresce, de maneira extraordi­nária. Por isso são castigadas com penas e sofrem os castigos dos antigos males: umas, suspensas ao ar, são abertas ao sopro dos ventos ligeiros; outras lavam no fundo de um golfo o crime com o qual foram manchadas, ou são depuradas pelo fogo. Cada um de nós sofre os seus Manes; a seguir somos enviados para o amplo Elísio, cujas ridentes campinas em número pequeno nós ocupamos. Finalmente, depois que um longo dia, volvido o círculo dos tempos, apagou a mancha profunda e purificou a origem celeste, faísca do sopro primi­tivo; quando todas essas almas viram rodar a roda durante mil anos, o deus os chama em longas filas para as bordas do rio Letes, a fim de que esqueçam o passado e tornem a ver as abóbadas do alto, e comecem a querer voltar para corpos.”

Anquises acabara de falar; conduz seu filho, assim como a Sibila, para o meio dos grupos e da multidão burburinhante, e se colocam numa eminência, donde o herói possa ver a todas e passar em revista a longa fila sob seus olhos e conhecer seus rostos ao passa­rem. “Agora te direi que glória aguarda no porvir a raça de Dárdano, que netos de raça itálica te são reservados, almas ilustres e que devem revestir nosso nome; revelarei teus destinos. Aquele jovem, vês, que se apóia numa lança sem ferro, a sorte lhe concedeu o lugar mais vizinho da luz; sairá por primeiro para os sopros do éter, de sangue italiano misturado ao

8. Eneida de Virgílio



nosso: é Sílvio, nome albano, teu último filho; tua esposa, Lavínia, to dará tardiamente, no fim da tua longa idade; ela criará nos bosques esse rei, pai de reis, do qual nossa família descenderá e dominará em Alba Longa.

Aquele que está bem perto dele é Procas, honra da nação troiana; e Cápis e Númitor e aquele que fará reviver teu nome, Silvio Enéia, igualmente admirável pela piedade e pelas armas, se algum dia obtenha reinar sobre Alba. Que jovens! que força mos­tram! olha como suas frontes estão cingidas com o carvalho cívico. Esses aqui te fundarão Nomento e Gábios e a cidade de Fidena; aqueles lá fundarão sobre montanhas a cidadela de Colácia, a cidade dos pomécios e a fortaleza de Ínuo, Bola e Cora: tais serão os nomes dessas terras, hoje sem nome.

E depois, a seu avô se unirá Rômulo, filho de Marte, o qual sua mãe Ília dará à luz, do sangue de Assáraco. Vês como duas plu­mas se elevam sobre a sua cabeça, e como o próprio pai dos deuses superiores o consagra já com a sua própria insígnia? É sob seus auspícios, meu filho, que aquela ilustre Roma igualará seu império à terra, sua alma ao Olimpo, e com uma só muralha cercará sete coli­nas. Cidade fecunda em heróis! Tal como a Mãe Berecíntia, levada sobre o seu carro e coroada de torres, atravessa as cidades frígias, feliz por ter gerado filhos dos deuses, e abraçando cem netos, todos habitantes do céu, todos ocupando as alturas superiores.

Volta, agora, teus olhares para aqui: olha esta nação; são os teus romanos. Este aqui é César e toda a descendência de Iulo, desti­nada a vir sob a grande abóbada do céu. Este é César Augusto, filho dum deus, que tantas vezes ouviste ser-te prometido; de novo há de trazer ao Lácio séculos de ouro, por entre as campinas outrora gover­nadas por Saturno; estenderá seu império mais longe que o país dos garamantes e dos indianos, sobre as terras que se estendem além das constelações, além das rotas do sol e do ano, e onde Atlas que carrega o céu gira sobre suas espáduas o eixo do mundo semeado de estrelas luzentes. Desde agora, ao ruído de sua chegada, os remos cáspios tremem só com os oráculos dos deuses, e a terra meótica e as bocas do Nilo de sete braços. Nem sequer Alcides percorreu tantas terras, ainda que tenha ferido a corça de pés de bronze, pacificado os bos­ques de Erimanto, e tenha feito tremer Lema com seu arco; nem Líber, que conduz, vencedor, sua carruagem com rédeas de pâmpa­nos, conduzindo seus tigres do alto cume do Nisa. E nós hesitamos ainda a estender nossa glória por meio de altos feitos? e o temor nos impede que nos instalemos na terra da Ausônia?

Quem é aquele homem, ao longe, assinalado por ramos de oliveira e que traz objetos sagrados? Reconheço a cabeleira e a barba encanecida do rei romano que fortalecerá a cidade primitiva com leis, enviado da pequena Cures e duma pobre terra para governar um grande império.

Aquele que lhe sucederá, Tulo, interromperá o repouso da sua pátria e chamará às armas os soldados entorpecidos na paz e as tropas já desabituadas aos triunfos. Ao seu lado segue seu sucessor, cheio de soberba, Anco, excessivamente sensível ao favor popular. Queres também ver os reis Tarqúmios e a alma soberba do vingador Bruto e os fasces reconquistados? Ele será o primeiro a receber o poder de cônsul e as terríveis machadinhas, mas, seus filhos fomen­tando guerra revolucionária, ele, o pai, os votará ao suplício pela bela causa da liberdade. Infortunado! Qualquer que seja o julgamento que a posteridade fizer desses atos, em ti triunfarão o amor da pátria e o imenso desejo de glória.

Olha, ainda, ao longe, os Décios, os Drusos, Torquato arma­do de terrível machadinha, e Camilo que torna a trazer os estandar­tes. Aquelas almas, porém, que vês resplandecer com armas iguais, agora em pleno acordo, enquanto a noite pesar sobre elas, mas, ai! que formidável guerra rebentará entre elas quando tocarem o limiar da vida! quão grandes exércitos! quão grande mortandade farão entre si! O sogro descendo dos contrafortes alpinos e da cidadela de Moneco, o genro apoiado por forças adversas do país da Aurora. Ó rapazes,

9. Eneida de Virgílio



não, não acostumeis vossos espíritos a tão grandes guer­ras; não volteis as forças sólidas da pátria contra as suas próprias entranhas! E tu, o primeiro, tu que tiras tua origem do Olimpo, poupa-a, lança fora da mão as armas, ó meu sangue!...

Aquele, vencedor de Corinto, conduzirá seu carro sobre as alturas triunfais do Capitólio, ilustre para sempre por causa do mas­sacre dos aqueus. Aqueloutro destruirá Argos e a Micenas de Agame­não e o próprio Eácida descendente de Aquiles poderoso pelas armas, vingando seus antepassados de Tróia e o templo ultrajado de Minerva. Quem poderia, ó grande Catão, ou tu, Cosso, vos não men­cionar? Quem poderia esqueçer a família dos Gracos, ou aqueles dois raios de guerra que foram os dois Cipióes, flagelo da Líbia, ou Fabrício, glorioso pelas suas pequenas posses, ou tu, Serrano, semeando teu campo? Fatigado, para onde me levas, Fábio? Tu, famoso Má­ximo, és o único que, sozinho, em temporizando, nos restabeleceste a república.

Outros saberão, com mais habilidade, abrir e animar o bron­ze, creio de boa mente, e tirar do mármore figuras vivas, melhor defenderão as causas e melhor descreverão com o compasso o movi­mento dos céus e marcarão o curso das constelações: tu, romano, lembra-te de governar os povos sob teu império. Estas serão tuas artes, impor condições de paz, poupar os vencidos e dominar os soberbos.”

Assim falou o pai Anquises; e ajuntou estas palavras para seus ouvintes maravilhados: “Olha como Marcelo avança, assinalado pelos despojos opimos, e como esse vencedor ultrapassa a todos os heróis! É ele que, na perturbação de um grande tumulto, manterá o poder romano, e, cavaleiro, aterrará os púnicos e o gaulês rebelde e suspenderá ao pai Quirino a terceira armadura arrebatada ao inimigo”.

E então Enéias o interrompe, pois ele via aproximar-se com Marcelo um jovem notável pela beleza e pelas armas replandecentes, mas com a fronte pouco alegre e com os olhos tristes e baixos: “Quem é, meu pai, aquele que acompanha assim o herói na sua marcha? É seu filho ou algum dos netos que descendem da sua gran­de estirpe? Que murmúrio lisonjeiro fazem os companheiros que o cercam! Que majestade a sua! Mas a noite sombria voa ao redor da sua cabeça com triste sombra”. Então o pai Anquises, derramando lágrimas, começa: “Ó meu filho, não procures conhecer o enorme luto dos teus. Aquele lá, os destinos o mostrarão somente à terra e não permitirão que ele exista por muito tempo. A raça romana vos pareceu muito poderosa, deuses do alto, se esses dons fossem durá­veis. Quão grandes gemidos de homens levantará aquele campo fa­moso, vizinho da grande cidade de Marte! E tu, deus do Tibre, que funerais verás quando correres diante da sua tumba recente! Nenhum filho da raça de Ilião jamais levará tão alto a esperança de seus antepassados latinos; jamais a terra de Rômulo se orgulhará tanto de um dos seus rebentos. Ai de mim! piedade! Ai de mim! antiga honra, direito que a guerra jamais venceu! Ninguém impunemente se teria oposto a ele quando, a pé, marchava contra o inimigo, ou quando picava com as esporas os flancos do cavalo espumante! Ai de mim! jovem digno de compaixão, pudesses tu romper os rigorosos destinos! Tu serás Marcelo. Lançai-lhe lírios a mancheias, que eu espalharei flores vermelhas, que eu encha, ao menos, com essas ofe­rendas a alma do meu neto, e me desobrigue de uma vã homenagem!”

E assim que eles erram aqui e acolá por toda a região, através dessas largas planícies nebulosas, e dirigem seus olhares para toda parte.

Depois que Anquises conduziu seu filho a todos os lugares e lhe acendeu o ânimo com o amor da fama que há de vir, fala-lhe então das guerras que terá de sustentar, faz-lhe conhecer os povos laurentes e a cidade de Latino e como poderá evitar ou suportar cada uma das provas.

Há duas portas do Sono: uma, diz-se, é de chifre, pela qual as Sombras verdadeiras encontram saída fácil; a outra, brilhante, feita de marfim refulgente de brancura, mas pela qual os Manes enviam para o céu os sonhos falsos. Anquises, sempre falando, acompanha seu filho assim como a Sibila e os faz sair pela porta de marfim. O herói corta o caminho para as suas naves e reúne-se aos companheiros. Depois, bordejando a costa, dirige-se para Caiete. A âncora é lançada do alto da proa; as popas estão na praia.

Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/eneida.pdf

domingo, 29 de abril de 2012

Marte



Marte era o deus da guerra para os latinos (romanos), Os seus dois filhos Rômulo e Remo foram os fundadores da cidade que virou império (Roma). Eram-lhe consagrados, o carvalho, o lobo, a fera e os combatentes ( guerreiros). Só aceitava os sacrifícios de: boi, carneiros e porcos. O seu mês era março.

sábado, 28 de abril de 2012

Rômulo & Remo




Impérium romanum quo non potest memória humana recordari ullo fere toto orbe neque minus ab exórdio neque amplius incrementis, haber exórdium a Rômulo, qui fílius vírginis et, quantum putatus est, martis, éditus est uno partu cum fratre Remo. Is, cum latrocinaretur inter pastores, ocródecim annos narus constrítuit in monte Palatino eexiguam urbem undécimo kalendas Maii, tértio anno sextae Olimpíades,(et) trecentécimo nomagésimo quarto post Troiae, ut qui réferunt plúrimum minimunque.

TEMPINI, Otávio.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Latim - Gramática Latina



Latim - A Arte de Raciocinar Naôr Rocha Guimarães

1 - Alfabeto

O alfabeto do latim primitivo era formado por 21 letras, as mesmas do português, com a exclusão do J, do V e do Z. Por influência do grego, incluíram-se o K, o Y e o Z. Mais tarde, com o advento das línguas neolatinas, por seu prestígio e mesmo por seu crédito, já para as transcrições literárias, já para a evolução do próprio latim, acresceram-se o J e o V.

2 - Pronúncia do Latim

A pronúncia romana do latim é quase igual à da língua portuguesa, com algumas poucas diferenças:

l. Ae e oe pronunciam-se e. Exs.: – rosae (pr. róse) = as rosas; poena (pr. péna) = castigo.

Obs.: a) e pronunciam-se ae e oe. Exs.: poēta (pr. poeta) = poeta; aēr (pr. á-er) = ar.

b) Mesmo no fim das palavras a vogal e sempre se pronuncia e e a vogal o sempre se pronuncia o.

2. O c diante de e e diante de i tem quase o som de tch (o som de ch inglês em children). Exs.: cinis (pr. tchinis) = cinza; cedĕre (pr. tchédere) = ceder; micae (pr. mitche) = migalhas.

Obs.: o grupo ch tem o som de k. Ex.: architectūra (pr. arkitectura) = arquitetura.

3. O g diante de e e de i soa dg (o som do g inglês em gentleman). Exs.: gero (pr. dgéro) = levo; gigas (pr. dgigas) = gigante.

Obs.: O grupo gn soa como o nh português. Ex.: agnus (pr. ánhus) = cordeiro.

O h não soa nunca. Portanto homo (homem) pronuncia-se ómo; rythmus pronuncia-se ritmus, etc.

O j soa como i (era ignorado pelos romanos). Exs.: juvenis (pr. iuvenis) = jovem; adjutorĭum (pr. adiutórium) = auxílio.

3 - A importância da Análise Sintática no Ensino do Latim

No latim, as palavras mudam a terminação conforme a função sintática que têm na oração. A mesma palavra pode se apresentar de seis maneiras diferentes, pois são seis as funções sintáticas a que está subordinada, uma por vez. Isso se considerarmos só o singular, pois no plural serão mais seis terminações diferentes. Vejam-se os exemplos:

Português Latim

O aluno é aplicado. Discipŭlus diligens est.

O livro do aluno é bonito. Liber discipŭli pulcher est.

Os alunos são aplicados. Discipŭli diligentes sunt.

Os livros dos alunos são bonitos. Libri discipulōrum pulchri sunt.

Não se consegue falar ou escrever em latim se não se fizer a análise sintática, mesmo que seja apenas mentalmente. Cada palavra tem que estar na sua função. É imprescindível que se tenha um bom conhecimento de análise sintática para se aprender o latim.

Para alguns autores, mais que análise sintática seria análise lógica a ser usada na aprendizagem do latim. Uma análise mais apurada, mais detalhada. Contudo uma análise sintática bem estruturada é o mesmo que a análise lógica. As orações, ou proposições são elaboradas, devendo cada palavra estar em sua respectiva função sintática. Isso leva à aplicação exata da terminação.

Latim - elementos gramaticais


4 - As Funções Sintáticas e os Casos Latinos

São seis as funções sintáticas que uma palavra pode exercer em uma oração. É bom saber que oração (ou proposição) é uma ou mais palavras que têm sentido completo. Ela é formada por elementos que vêm a ser as funções sintáticas.

Para cada função sintática há, em latim, um caso. Caso é o modo de se escrever uma palavra de acordo com sua função sintática. Há seis casos em latim, pois são seis as funções. Numa oração, podem-se encontrar seis elementos:

· Sujeito

· Vocativo

· Adjunto adnominal restritivo

· Objeto direto

· Objeto indireto

· Adjunto adverbial

4.1 – Sujeito

É o elemento do qual se diz alguma coisa. É o agente de uma ação verbal ou o seu paciente. Em Pedro gosta de análise sintática, Pedro é o elemento ou o agente da ação de gostar. É o sujeito da oração. Já em a análise sintática da oração foi feita por Pedro; a análise sintática é o elemento ou paciente que sofre a ação verbal. É o sujeito .Em latim, o sujeito vai para o nominativo . O nominativo é, então, o caso que indica a função sintática do sujeito. Em Português, tem-se a flexão de gênero , de número e de grau, com terminações diferentes da palavra para indicar o singular, o plural, o aumentativo e o diminutivo. Em latim, a flexão é de caso, com terminação diferente para as diversas funções sintáticas.

4.2 – Vocativo

É um chamamento ou apelo. Toda vez que se se dirige a alguém, solicitando ou exigindo algo, tem-se vocativo. Quando se diz: aluno, estude mais, há um apelo, um chamado. Aluno é o elemento que indica esse apelo ou chamado. Aluno é vocativo. Outros exemplos: Quer estudar latim, Maria? Aprendam, meninos, a lição. Os termos grifados são vocativos. O vocativo é andarilho, ou seja, pode vir no início , no meio ou no fim da oração. Em latim, o caso do vocativo chama-se, também, vocativo. É bom notar –se que o vocativo vem sempre com um indicador especial: é seguido de vírgula ou precedido de ó (nunca oh , que é usado em frases exclamativas): Ó Deus, onde estais que não me ouvis?

4.3 - Adjunto adnominal restritivo ou complemento de especificação

Mais que um elemento,é um complemento. Indica sempre, através da preposição de , de quem é determinada coisa ou objeto. Restringe a posse de algo. Em o livro de Pedro está encapado, de Pedro é o adjunto adnominal restritivo. Não é todo livro que é encapado; o de Pedro é. Restringe e especifica o possuidor. Daí chamar-se complemento de especificação. Outros exemplos: Comprou-se a fazenda de vovô. O estudo do latim exige raciocínio. O prefeito da cidade é muito ativo. Os termos sublinhados são complementos de especificação. Em latim, o caso desse complemento é o genitivo.

4.4 - Objeto direto e objeto indireto

Antes de mais nada, é bom recordar o que é predicação verbal. Em português, em latim e nas demais línguas o verbo é a palavra mais importante da oração. Ou designa uma ação , ou um estado , ou um fenômeno natural. Na análise sintática ou lógica, o verbo forma o predicado, o elemento essencial para que a frase seja oração. Ele predica, atribui uma ação ou um estado a alguém. Quando a ação fica no sujeito, não transita, não passa para outro elemento, diz-se que é de predicação completa. Em o pássaro canta muito, canta é um verbo de predicação completa. Não exige nada. O significado está nele mesmo. É verbo intransitivo.

Já em preciso de amigos,; estudo latim, o significado verbal sai do sujeito, transita para outro elemento (de amigos, latim). São verbos de significação incompleta. São verbos transitivos, distribuídos em quatro grupos distintos:

  1. Diretamente transitivos - a ação passa para a pessoa ou coisa sobre a qual recai, sem auxílio de preposições: João matou o leão terrível; nossos soldados vencerão o inímigo; o lobo devora o cordeiro A pessoa ou coisa sobre a qual recai a ação do verbo – complemento verbal -, chama-se objeto direto. O leão terrível, o inimigo, o cordeiro são objetos diretos das orações acima. Em latim, o objeto direto vai para o caso acusativo.

  1. Indiretamente transitivos - pedem um complemento verbal através de preposições. É o objeto indireto: o homem depende de Deus; o general gosta dos soldados; o aluno obedece ao professor; recorremos a nossos pais. Dos soldados, ao professor, a nossos pais são objetos indiretos. O objeto indireto em latim vai para o caso dativo. Também vai para o dativo o complemento nominal em português, que é a seqüência de sentido – a integração – de um nome incompleto ( por nome entendem-se o substantivo, o adjetivo e o advérbio). Os nomes incompletos são oriundos de verbos transitivos: nada é difícil para Deus ( difícil = dificultar); o filho é agradecido ao pai ( agradecido = agradecer); temos obstáculos ao ensino do latim ( obstáculos = obstacular). Os termos grifados são complementos nominais; vão para o dativo.

Observação: entende-se por termo uma palavra ou uma expressão ( mais de uma palavra ) com uma função sintática específica.

  1. Duplamente transitivos - exigem não apenas um, mas dois complementos, um direto e outro indireto. São os chamados verbos bitransitivos, ou seja, transitivos diretos e indiretos, simultaneamente:

O educador diz coisas agradáveis e desagradáveis aos educandos” (quem diz, diz alguma coisa a alguém – exige objeto direto / coisas agradáveis e desagradáveis /, e objeto indireto / aos educandos / ). Outros exemplos: as crianças ofertam flores às mães; os romanos ofereciam sacrifícios de animais aos seus deuses; dei um dicionário de latim ao aluno.

d. Verbos de ligação - são verbos de significação incompleta que exigem mais uma união do o que um complemento, pois ligam ( unem ) um nome a outro ( são chamados, também, verbos unitivos ). Este nome unido a outro ou é um estado ou uma qualidade: Pedro é estudioso (qualidade); ele está cansado (qualidade); somos criaturas humanas (estado). Ser, estar, parecer, continuar e outros são verbos que, dependendo do seu emprego, podem ser de ; ligação. O seu complemento ou união é o predicativo, que vai para o caso nominativo, em latim. Exemplos: Pedro é pedra; João permanece calado; a lição continua difícil ( pedra, calado e difícil são predicativos e estão no caso nominativo.

4.5 - Adjunto adverbial

É uma circunstância (situação, momento) que se acrescenta a uma ação verbal ou a um estado e ou qualidade. É um auxiliar (daí ser adjunto - que está junto) do predicado, acrescentando-lhe idéias de situações diferentes, momentos específicos. Há muitos tipos de adjuntos adverbiais:

· Lugar

onde = Estou na sala de aula . ( lugar em que se faz a ação)

donde = Vim de São Paulo. (procedência)

por onde = Passamos por caminhos difíceis. (através dos quais)

para onde = Vamos à escola. (lugar ao qual alguém se dirige)

· Tempo - No verão o sol é mais quente. (quando) Ele é estudioso desde a 1ª série.(há quanto tempo)

· Modo - O tribuno combatia com valor. (maneira)

· Companhia - Voltarei com os amigos. (pessoa com quem se faz uma ação)

· Instrumento ou meio - Trabalho com os braços. (coisa pela qual se faz alguma ação)

· Causa - “Chorai pelos vossos pecados”. (motivo pelo qual se faz alguma coisa)

· Matéria - Corrente de ouro. (substância com que se faz alguma coisa)

O adjunto adverbial tem como caso o ablativo. Nos exemplos supra os termos grifados, em cada exemplo, estão todos no ablativo. Os adjuntos adverbiais são, também, chamados de complementos adverbiais.

4.6 - Predicado - Já se disse que o predicado é o elemento essencial da oração. Há oração sem sujeito, mas não oração sem predicado. É tudo aquilo que é dito do sujeito. É o verbo com aquilo que o acompanha(complemento, adjunto adverbial). É tudo aquilo na oração menos o sujeito. Exemplo: A cibernética, hoje, domina o mundo, incontestavelmente. Tem-se aí: sujeito a cibernética; predicado: hoje, domina o mundo, incontestavelmente.

Quando o sujeito é oculto (subentendido, elíptico), indeterminado (existe, mas não se sabe qual é – não-identificado), inexistente (fenômenos naturais e outros casos específicos) o predicado é toda a oração: somos alunos aplicados – predicado = somos alunos aplicados; vive-se feliz, aqui - predicado = vive-se feliz, aqui; troveja, toda tarde, no verão – predicado = troveja, toda tarde , no verão.

Existem três tipos de predicado:

a) predicado verbal ( quando o verbo é importante – ação): O estudo do latim leva ao conhecimento do português.

b) Predicado nominal (o importante é o nome, com verbo de ligação): O soldado romano era valoroso.

c) Predicado verbo-nominal (uma ação e um estado ou qualidade ao mesmo tempo): O comandante chegou ferido da guerra. (chegou = ação; ferido = estado).

4.7 – Aposto

É um complemento explicativo. Um termo que explica outro termo. Essa explicação vem com ou sem preposição, com ou sem vírgula: Aristóteles, filósofo, é imortal; o general Caxias sempre venceu; a cidade do Rio de Janeiro é maravilhosa. O aposto segue o mesmo caso do substantivo explicado, ou determinado. Em João, aluno de latim, é estudioso, temos:

João = sujeito - caso nominativo

aluno de latim = aposto - caso nominativo

já em Pedro estuda com o colega Altevir, notam-se:

Pedro = sujeito - caso nominativo

com o colega = adjunto adverbial de companhia - caso ablativo

Altevir = aposto - caso ablativo.

4.8 - Adjunto adnominal

É todo artigo, adjetivo, pronome adjetivo, numeral que acompanham um substantivo em sua função sintática e nos seus casos. Na oração o aluno José cumpre seus deveres escolares têm-se os seguintes adjuntos adnominais:

o = adjunto adnominal de aluno (= sujeito – caso nominativo)

seus = adjunto adnominal de deveres ( = objeto direto - caso acusativo)

escolares = adjunto adnominal de deveres ( = objeto direto - caso acusativo)

Em latim, o adjunto adnominal é analisado por muitos como atributo (aqui também ele o será) das diversas funções sintáticas. Estará sempre no mesmo caso dos substantivos que acompanha.

5 - Flexão - Declinação

Algumas classes de palavras (substantivos, adjetivos, pronomes, verbos e alguns numerais) mudam, sofrem alteração no final, ou seja, na última sílaba. São palavras variáveis, pois têm terminações diferentes.

Invariável é a palavra que tem sempre a mesma terminação. A parte final das palavras variáveis chama-se desinência. Radical é a parte da palavra sem a desinência. Na palavra teimoso a desinência “o” pode ser mudada para “a”, “os”, “as”, fazendo teimosa, teimosos, teimosas. Em latim, obtém-se o radical de uma palavra tirando-se-lhe a desinência do genitivo singular, conforme será visto adiante. Flexão de caso é a alteração que a palavra recebe na desinência, conforme a função sintática que tem na oração.

Os substantivos , em latim, estão reunidos em cinco grupos, pois nem todos terminam da mesma maneira. Estes grupos são denominados de declinação. A declinação é um conjunto de flexões de determinado grupo de substantivos. São cinco as declinações, todas com singular e plural. Cada declinação tem um total de doze flexões, seis para o singular e seis para o plural.

Para saber a que declinação pertence uma palavra basta verificar-lhe a desinência do genitivo singular. Os dicionários trazem a palavra no nominativo, em seguida no genitivo, a palavra toda ou somente as letras da desinência. Abaixo está o genitivo singular das cinco declinações:

Declinações 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª

Genitivo sing. ae i is us ei

Exemplos:

rosa, ae (=rosa) lª declinação

Petrus, i (=Pedro) 2ª declinação

fons, fontis (=fonte) 3ª declinação

domus, us (=casa) 4ª declinação

dies, ei (=dia) 5ª declinação

Como já foi visto, para encontrar-se o radical de uma palavra tira-se a desinência do genitivo singular. Assim, tem-se:

nominativo singular genitivo singular radical

rosa rosae ros

Petrus Petri Petr

fons fontis font

domus domus dom

dies diēi di

Importante: ao dizer-se uma palavra, em latim, é necessário declará-la no nominativo e no genitivo. Portanto, diz-se: fons, fontis (=fonte); Maria, Mariae (=Maria); manus, manus (=mão); res, rei (=coisa); dominus, domini (=senhor).