sábado, 1 de março de 2008

fabula


O REI MIDAS , rei da Frigia, esta fábula nos conta as disventura de um rei pouco inteligente, que era poderoso, muito rico, mas desprovido de sabedoria. Fala de um homem, que por haver desejado possuir muito mais do que tinha, correu o risco de morrer de fome, e, por ter desejado criticar, sem ter uma precisa competência do que criticava, recebeu como presente um par de orelhas de burro. Sua primeira desventura aconteceu-lhe quando hospedou Sileno. Era, este, um sátiro, fiel e inseparável amigo de Dionísio (o Baco dos Romanos), o deus protetor do vinho e dos banquetes. Durante uma festa, Sileno bebeu um pouco mais do necessário e, embriagando-se, afastou-se dos companheiros e foi parar no jardim do rei Midas. O Senhor da Frigia reteve um sua suntuosa morada, durante dez dias, o velho sátiro e tratou-o com todo o respeito, fornecendo-lhe ótimas iguarias. Passado este período, o Rei entregou o sátiro a Dionísio, e o deus, para recompensá-lo da ótima hospitabilidade dada ao seu amigo, disse-lhe que lhe concederia o que ele lhe pedisse. Ante semelhante promessa, um rei inteligente teria pedido: ou tornar-se ainda mais poderoso e invencível ou ficar sempre bem visto pelos deuses. Midas, ao invés, demonstrou, que para ele, uma única coisa valia no mundo: o ouro. E, na verdade, pediu a Dionísio o poder de transformar em outro tudo quanto tocasse. Dionísio, provavelmente, ficou espantado com esse pedido e, senão fosse o tipo bizarro que conhecemos, talvez houvesse prevenido o incauto monarca para que refletisse bem antes de fazer semelhante proposta. Mas, justamente porque gostava de brincar, não se recusou em atender ao pedido do seu anfitrião, e, desde aquele momento, todo objeto, todo fruto, todo alimento que Midas tocava com a mão transforma-se em ouro. A princípio, uma estúpida alegria invadiu o coração do poderoso senhor da Frigia. Ele, de fato, alegrou-se por haver gasto tanto dinheiro parra tratar de maneira conveniente uma pessoa tão cara a Dionísio, porque, certamente, ele se teria recompensado com fartura da despesa e, com orgulho, pensava que se tornaria o rei mais rico de toda a terra. Mal Midas tocava uma coxinha de cabrito, logo esta se tornava um belo lingote de fulvo ouro, mesmo conservando a forma de coxa. Tomava na mão uma taça repleta de vinho, e tanto a taça como o conteúdo transformavam-se em ouro. Mandava trazer um prato de figos e estes, mal tocados, transformavam-se no precioso metal. Isso acabou em que, dois ou três dias depois, e outras tantas noites, Midas pudera enriquecer seu tesouro com uma imensa quantidade de ouro, mas não conseguia engulir nem um pedaço de torta e, pela grande fome que sentia, não mais se agüentava de pé. Rogou, então, imediatamente, a Dionísio que ficasse com o dom que lhe concedera, do contrário ele acabaria morrendo de inérdia! Dionísio aconselhou o Rei a mergulhar no rio Pactolo, que corre nas proximidades da cidade dos Sardos. Midas apressou-se a ir até lá, tomou um banho e ficou livre daquele dom, enquanto o rio se tornou rico de areias auríferas. Assim, podemos acrescentar que os antigos encontraram uma explicação mítica para a abundância de tais areias no Pactolo. Esta lição poderia ter tornado um pouco mais cauto o ingênuo Midas, mas assim não aconteceu: pouco tempo depois da aventura do ouro, devia ocorrer-lhe outra, ainda mais desastrosa. Na Frigia, no monte Tmolo, houve uma competição musical entre o deus Apolo e o deus Pã, protetor dos pastores. Os dois competidores tinham entregue a missão de árbitro a Tmolo, deus da montanha, e este proclamou Apolo vencedor. Todos aprovaram tal decisão, mas Midas, que não tinha motivo algum para interferir, e que de música nada entendia, declarou Apolo inferior a Pã. Apolo ficou ressentido com isso e vingou-se. Já que o rei Midas demonstrara ser um burro, exprimindo aquele insensato parecer, fez-lhe crescer orelhas como as de um asno. Imaginem só a dolorosa surpresa de Midas, sua vergonha, e seu temor, ao pensar no quanto seus súditos iriam rir por terem um soberano dotado de semelhantes pavilhões auriculares. Procurou, então, ocultar a vingança de Apolo, pondo na cabeça um alto gorro, que lhe ocultava as orelhas. Chegou, porém, o dia em que teve que recorrer a um servo, para que lhe cortasse os cabelos, que se haviam tornado longuíssimos. Escolheu aquele que lhe pareceu mais obediente e fiel, e recomendou-lhe que mantivesse no mais absoluto silêncio sua infelicidade. O servo-cabeleireiro não violou o juramento prestado, nem revelou jamais o segredo a nenhuma alma viva, mas não conseguiu guardá-lo para si. Tinha jurado não o revelar a nenhum ser vivo, portanto, não passara por perjuro se o confiasse à terra. Cavou um buraco no chão e nele murmurou o que Midas não queria que soubesse, e sentiu-se aliviado de um peso enorme, como todos os faladores que não ficam satisfeitos enquanto não externam o que devem calar. Mas, um dia, justamente sobre o buraco, já entupido, nasceu um caniço, cujas raízes desceram até tocar no buraco, e absorveram deste as palavras do servo. E os caniços repetiam, farfalhando, ao vento, por uma infinidade de vezes, de modo que muita gente o ouviu, o segredo das orelhas de Midas, que, assim, se tornou o divertimento de todos os bisbilhoteiros que viviam na Frigia.